Safari Brasileiro – O Sertão Kalunga

Emeric Kalil —  18 de Outubro de 2019

O Moleque e a Criança

Quando criança, tinha preferência por estar entre os adultos e investindo tempo na música, teatro ou documentários sobre as Savanas Africanas. Me fascinava a complexidade e a forma como a vida se desenvolveu lá. Achava curioso saber da existência de pessoas vivendo em regiões intocadas por Nós e de sua relação com o meio ambiente. Nutria a vontade de um dia me aproximar desse universo, da natureza e pessoas de lá. Nem é à toa que a África é tida como o berço da humanidade, o continente carrega uma parcela respeitosa da história do mundo, sendo um dos poucos lugares que ainda têm locais inexplorados pelo homem.

 

Cresci alimentando essa vontade de um dia conhecer o povo do qual nossa nação descende e em agosto desse ano isso aconteceu. Um convite para integrar a Expedição Kalunga Adentro e fazer sua cobertura, me levou para uma das maiores experiências de minha vida, conhecer a “África Brasileira”.

A proposta era cavalgar 120 km, por parte do território Kalunga, durante 5 dias, seguindo uma rota cavaleira usada há quase dois séculos e assim ter uma menção de como era a vida das pessoas que viviam nas comunidades do Território Quilombola. Foram 5 pernoites e 7 horas de cavalgada por dia, passando por Cachoeiras incríveis, para enfim concluir a rota de volta à Comunidade do Engenho II, o ponto de partida.

Saímos do Engenho o mais cedo possível e ganhamos a estrada, nosso objetivo era atingir a casa de Sr. Simão, agora amigo e morador na rota Kalunga. Os animais impressionam por sua resistência e são tratados com comida, água e descanso todo o tempo. Minha parceira de viagem foi a Mula Roxinha, um animal para lá de confiável e inteligente.

Nossa primeira parada foi o Vão do Choco, que alcançamos depois de cavalgar 8 horas, escureceu e nosso caminho estava iluminado pela Lua.

Na casa de Sr. Simão fomos recebidos com carinho e atenção. Ele nos aguardava e junto com Sr. José, catou arroz e preparou o jantar. Essa troca me emocionou, vivemos num mundo cheio de rótulos e é incrível ver dois senhores sentarem-se para realizar essa tarefa, que era uma referência tão matriarcal minha. 

Enquanto separavam o arroz, muito amigos, os dois conversavam sobre as novidades. Ali tive o vislumbre de uma vida anciã saudável. Ele vive num lugar incrível, com tudo que precisa tirado da terra e água gelada que brota da fonte a qualquer instante.

Acordamos no dia seguinte cedo, tomamos banho de “Cuia” e um café reforçado para seguir o segundo dia. As refeições acontecem sempre nas paradas de pernoite, café da manhã e jantar na casa das 7 famílias ao longo da rota cavaleira, que percorremos nos hidratando bastante, comendo lanches leves e a poderosa paçoca de carne seca Kalunga.

 

Em frente para o segundo dia tínhamos a meta de atingir o Dedo do Moleque, num longo trajeto, com temperatura média de 40° e sem cachoeira. Era real, a gente estava ali no meio do Sertão, num calor escaldante e só podia pensar em seguir adiante. Seis ao todo, nunca tínhamos nos relacionado antes e naquele momento éramos uns pelos outros.

Aceleramos o passo e chegamos ao Mirante dos Vãos, do Moleque e de Almas. Ali estava nosso objetivo cercado de uma beleza inigualável, com sua vasta floresta cortada pelo rio Paranã.

O Dedo se tornou nosso farol e aqui é onde a magia começa. Eu descrevendo tudo como turista, mas estava lá para registrar e naquele momento alguns dispositivos começaram a apresentar problemas. O telefone desligava sozinho a câmera, interrompia a gravação ou captava, mas depois a imagem aparecia borrada. Trocamos de aparelho e ainda assim, alguns problemas continuavam a acontecer. 

À medida que ia descendo rumo ao vão, o farol natural ia tomando forma e quando finalmente pude focá-lo, fui acometido de uma emoção arrebatadora. A lente da câmera trouxe a imagem da enorme rocha para perto e o sol ajudou a revelar a beleza naquele busto pré-histórico. Ela parecia revelar uma face, que ia de encontro a uma presença observadora que nos acompanhava desde o mirante. Chegamos ao Vão do Moleque no pôr do sol, para seguir até o anfitrião do dia, O Sr. Nivaldo, conhecido como Ni.

O terceiro dia começa cedo, temos que cavalgar até a propriedade de Sr. João, filho de Dona Valeriana, Matriarca Kalunga de 94 anos, para conhecer o Poço Azul do Curriola. Na Cultura Nordestina de minha família, curriola também é bagunça, brincadeira e festa, sentimentos que definem esse dia. 

Depois de caminhar 2 km rio acima, por pedras e poços, chegamos à incrível piscina natural azulada. Retornamos para pousar na casa do Sr Ivan, filho mais novo de Dona Valeriana, onde fomos recebidos com enorme carinho e dormimos mais uma noite.

A manhã seguinte nasce com os planejamentos, chegara o quarto dia e a hora de deixar o Vão do Moleque. No dia anterior, falamos sobre a grande serra que iríamos subir montados e do seu grau de dificuldade. Os animais se enfileiram e a subida começa, o som dos cascos quase parece virar música para a vista panorâmica. Seguimos num passo ajustado e alcançamos o cume da Serra do Curriola, agora nos dirigindo ao Maquiné para conhecer a Cachoeira Juliana e o Sr. José Mariano. Já em sua Casa, descarregamos os animais e montamos novamente para iniciar a grande aventura que nos aguardava.

Uma trilha linda por entre as árvores grandes e a famosa Roça de Toco, método Kalunga  agroflorestal que beneficia o solo com várias culturas, de forma sustentável e não predatória, é nossa primeira visão. A mata vai se fechando e agora estamos em meio a selva. Sr José lidera a caravana, campeando para reconhecer o caminho, mudado pelas muitas cercas e demarcações feitas no último ano. Seguimos e encontramos o acesso para a cachoeira, tínhamos uma hora para curtir e voltar, antes de escurecer.

Um contratempo precisa de nossa atenção e nos faz sair do local já sem Sol. Reconhecer o caminho de volta na mata fechada, era tarefa que só o Sr. José poderia executar. Ele nos orienta a parar num lugar, pois estávamos muito perto de um cânion e o escuro poderia nos trair. Ali nos deixa todos montados e sai, arriscando-se na busca pela trilha para nos tirar de lá. Ao longe eu escuto uma cavalgada e logo depois um chamado, ele havia encontrado.

Com ausência total de luz, agora só nos restava confiar na destreza dos animais. Aliviados, começamos a reparar as estrelas, enquanto as Mulas seguiam umas às outras. Então um meteorito rasga o céu, nos presenteando por mais uma etapa cumprida. Uns riram, outros choraram e alguns choraram e riram.

Voltamos à sede para encontrar o Sr. José Mariano, conhecemos também Sua Companheira e seu irmão, o Sr. Santino. Contamos de nossa aventura, rimos, comemos juntos e ali também pousamos. 

Sr. José acordara cedo e os nossos companheiros de viagem já estavam prontos para seguir. Acordar e ir, é o sentimento agora, e enfim chegamos ao quinto dia. Era minha primeira vez em Cavalcante, tinha ouvido muito falar da Santa Bárbara e visto fotos. O final de nossa odisseia era um mergulho na joia azul.

Agora mais rápida, a Caravana vai seguindo a trilha cavaleira, enquanto o Cerrado dá seu show com jardins multicoloridos e formações rochosas que parecem terem sido feitas à mão. Uma harmonia natural composta por pássaros, ventos e água é o som presente. A exuberância fazia a garganta dar nós e o coração palpitar de alegria. Pausa para o Almoço com familiares de Sr. José e seguir em frente. À essa altura turistas e outros Guias já sabiam de nossa empreitada e chegando à Santa Bárbara recebemos uma saudação.

Decidi fazer a Cavalgada também por um interesse pessoal, que era ficar a sós comigo, para encerrar o grande ciclo de reencontro com a criança interior. A Imersão na Cultura Kalunga e seu território, me mudaram para sempre. Saí de casa e era um, ao retornar outro.

Missão cumprida e o crédito de uma experiência para toda a vida!

Émeric Kalil

Émeric Kalil

Cantor, Fotógrafo, Publicitário, Produtor e Vivente.

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1 comentário em “Cavalgada no Território Quilombola Kalunga”

  1. Genial relato e emoção..na justa medida
    Medida infinita que um pensa ao ler a passagem sobre o céu de estrelas que surge entra as árvores e a noite no meio do mundo!

    Responder

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